ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações

Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSP

BRASIL: IMBRICAÇÃO

Entre as linguagens da videoarte e da performance, existe uma forte imbricação e muitas fecundas possibilidades de experimentação de linguagem.

O vídeo na performance e a performance no vídeo.

O experimental dentro do experimental.

Como pontua Arlindo Machado: “A maioria dos trabalhos produzidos pela primeira geração de realizadores de vídeo [no Brasil] consistia basicamente no registro do gesto performático do artista. Dessa forma, consolida-se o dispositivo mais básico do vídeo: o confronto da câmera com o corpo do artista”. (Machado, 2007: 21)

O desenvolvimento da vídeoarte é muito recente no mundo, mais ainda no Brasil. Isto, em função do desenvolvimento da tecnologia e do acesso à ela. Segundo consta, o primeiro artista a comprar uma câmera de vídeo foi Nam June paik em 1963, em Nova York. O primeiro artista brasileiro foi Aguilar, trazendo de fora, em 1974.

No Brasil, ainda sem acesso a mecanismos de manipulação da imagem, os vídeo-artistas muitas vezes realizaram uma ação diante da câmera. A ação terminava, terminava o vídeo. E assim ele era veiculado.

 

“Esses artistas [do vídeo] se expressavam dentro algumas linhas principais: a significação abstrata, quer dizer, eles usavam meios eletrônicos, tecnológicos, etc. para pesquisar uma imagem abstrata de vídeo de televisão. Uma outra tendência era a documentação, auto-expressiva e social, quer dizer, eles faziam performances que eram registradas em vídeo e eles apresentavam como trabalho de vídeo, mas na maioria das vezes eram performances e instalação ambiental que é o que hoje nós chamamos instalações de vídeo.”

Cacilda Teixeira da Costa, p.2, TR 2130 – 1990

 

Nas citações aparece uma série de apontamentos falando sobre o tempo no vídeo, a apreensão do público, o dito “tédio da videoarte”.

 

“O tempo do vídeo é uma coisa decidida pelo artista. É uma coisa que causava imensa inquietação e muitas vezes tédios que viraram folclore: o tédio da videoarte. Na verdade, isso é um pouco da inexperiência dos artistas que vinham das artes plásticas e não tinham temperamento do uso do tempo. Então, faziam vídeos muito longos. (…) Uma forma que os artistas descobriram para contornar esse problema do tempo foi com a videoinstalação. (…) O tempo é um dos dados fundamentais da videoinstalação.”

Cacilda Teixeira da Costa, p.3-4, TR 2130 – 1990

 

O tempo da comunicação pela imagem estava sendo experimentado.

 

O público está habituado à televisão, com sua linguagem marcadamente cinematográfica que, por sua vez, traz uma referência histórica do teatro.

 

“A televisão brasileira não tem interesse [na videoarte], ela está muito viciada dentro de um determinado tipo de imagem que é a chamada ‘imagem global de qualidade’, em que os atores interpretam. Ainda é uma linguagem de teatro e não uma linguagem de vídeo. ”


Aguilar, p. 4, FT 0491 – 1980

 

Além disso, o tempo de apreensão da informação na televisão está sempre entremeado de interrupções publicitárias, o que captura e distrai o público como aponta Walter Zanini:

 

“A história da videoarte, portable production, demonstrou o quanto a criatividade de seus autores esbarrou na indiferença e na hostilidade dos receptores. Incompreensível, aborrecível, desinteressante, inócua, eram e são adjetivos habituais a que se acrescenta a sua subestimação motivada pelos chamados ‘defeitos’, ou ‘enganos’ técnicos, que contrastam com a perfeição e a sofisticação da tela fosforescente da televisão de estúdio. Alguns teóricos do vídeo têm assinalado que o ‘aborrecimento’ do vídeo não seria maior que o da TV comercial, a cujos programas intercalados intermitentemente por interrupções de propaganda, promoções da estação, spots, etc., todos, porém, bem ou mal se acostumaram.”

Walter Zanini, CA 810 – 1978

 

Podemos perceber claramente referências de uma área na outra, apontadas nas citações abaixo:

“O vídeo tem tido uma das suas aplicações mais interessantes na prolongação e intensificação da experiência de uma apresentação ao vivo.”

Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, p. 9, CA 080 – 1975

 

“A videoarte está muito ligado também à arte da performance, porque na realidade, a arte corporala arte do momento - e o vídeo têm uma coisa muito interligada, o exato movimento, determinar a espontaneidade, a força do momento e a integração com as pessoas também é uma coisa interessante.”

Aguilar, p. 7, FT 0491 – 1980

 

“Interessante que o vídeo, além de ser a arte do olho, a arte de ver, a arte de ver não o convencional, mas a arte de descobrir você mesmo através de sua visão de mundo leva para um determinado tipo de ação corporal. (…) Então, vários artistas que utilizam esta mídia, esta linguagem, eles realmente fazem parte principalmente de um contexto de performance, eles realizam performances, eles realizam atos através do corpo.”

Aguilar, p. 1, FT 0491 – 1980

“Em 1970-71, eu fazia algumas coisas num estúdio da tv da ECA com algumas pessoas. Essa coisa veio a ser chamada de vídeoarte e, muito mais tarde, coisas dessa linha, que eu fiz em 76, 78, é que chamaram de vídeoperformance. Era uma ação que se desenvolvia entre pessoas, entre pessoas e coisas, num estúdio, e que tinha uma orientação muito clara de ser uma ação para registro televisivo.”

          Gabriel Borba Filho, p.2, TR 2025 – 1985

 

“Eu fazia muito cinema Super 8. Quando apareceu o vídeo, eu quis comprar pra experimentar, buscar canais de expressão. No fundo, tudo é uma coisa só, tudo se liga de alguma forma. Eu vi que nas artes havia muito essa relação, a relação entre as linguagens. Se bem que cada linguagem tem a sua profundidade, a sua especificidade, dando pra compor entre elas.”

Guto Lacaz, p.17, TR 1884 – 1985

 

“No Brasil, a linguagem do vídeo tem sido geralmente uma ação programada pelo artista, valendo-se do sistema portátil de 1/2 polegada. Performances de auto-análise, intervenções na tela do televisor, análises das condições de vivência do meio e ainda registros de atividades conceptuais que exploram o espaço/tempo do vídeo assinalam uma parte essencial desse processo.”

Walter Zanini, CA 810 – 1978

“O que fascina no vídeo é a permanência ali do movimento da coisa, é você conseguir captar esse tipo de espontaneidade.”

Walter Silveira, p. 9, TR 2133 – 1990

 

Isso tudo nos abre para uma escuta atenta do que esta acontecendo na arte, dentro das possibilidades de encontro entre linguagens, percebendo o que está presente de cada uma, sem buscar necessariamente atribuições ou definições enrigecedoras, mas podendo nesses encontros continuar os processos de (re-) criação em outras leituras poéticas e conceituais.

Talvez nossa cultura propicie essa imbricação de uma forma orgânica, pela natureza antropofágica que nos une.

 

“Nossa cultura é semi-oriental e semi-ocidental. Isso altera todo o processo. Não existe no Brasil a mesma visão departamentalizadora. O confronto específico entre teatro, cinema, performance. Na verdade, a tendência, na minha opinião, é se mesclar num outro organismo. ”

Emanuel Mello Pimenta, p.3, DT 3601 – 1984

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