ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações
Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSPPERFORMANCE: EMERGÊNCIA!
Diante dos textos e depoimentos sobre performance podemos elencar conceitos vibrantes que emergem deste material no intuito de perceber o ambiente que a performance ocupa. Um ambiente múltiplo, de experimentação de linguagem, sem molduras por natureza.
Podemos, assim, esboçar uma moldura utópica de uma arte sem limites.
“Manifestos e performances têm sido, desde os futuristas até hoje, a expressão dos dissidentes que tentam encontrar outros meios de avaliar a experiência da arte no cotidiano e suas relações com a cultura. Por essa razão, sua base tem sido quase sempre anárquica e, ainda mais através de sua própria natureza, a performance desafia uma definição precisa ou fácil, que fica sempre além da simples afirmação de que é ‘arte viva feita pelos artistas’ (Roselee Goldberg). Qualquer outra definição mais rígida anularia a possibilidade de existência da própria performance, pois ela engloba livremente um grande número de referências tais como literatura, comunicação visual, cinema, teatro, dança, música, arquitetura, (…), pintura, escultura e fantasia. Pode-se dizer que nenhuma forma de expressão artística tenha um âmbito tão sem limites. Cada performer cria seu próprio processo, com sua definição e a maneira de execução próprias. Manifestos, que acompanham grande parte desse trabalho, estabelecem uma ‘moldura’ e uma visão utópica de uma arte abrangente, que nenhuma pintura, escultura ou qualquer outra forma de manifestação artística pode desejar conseguir por si só.”
Lygia Arcuri Eluf, p. 2-3. DT 3604 – 1987
Definições, experiências e idéias somam-se, formando um caprichado conjunto de experiências-pensamento por onde a performance caminha.
“É bom definir a coisa porque definir não empurra, definir movimenta. Se você define, vem algum outro cara e se opõe ou então traz outra definição.”
Guto Lacaz, p. 6, DT3601 – 1984
Caminhemos, então, entre essas definições, comentários, histórias, palpites, insinuações, idéias que se repetem ou se contradizem, idéias improvisadas que escapam ou são meticulosamente elaboradas. Como na própria performance.
“Eu acho bom definir, ter definição por mais que as linguagens possam se unir, se relacionar, é bom ter claro o lugar de cada uma delas. É bom saber o que é que acontece na pintura, no teatro e na performance. Eu tenho uma definição acadêmica do que é performance: uma modalidade artística em trânsito entre as artes plásticas e as artes cênicas.”
Guto Lacaz, p. 4, DT 3601 – 1984
Em trânsito. Em movimento.
Especificidades das artes cênicas com interesses das artes plásticas se relacionam ou entram em conflitos, se somam ou se subtraem.
“De repente, o artista plástico deixa de manipular o seu material tradicional, pincel, tela, etc., e passa a manipular um material bastante sofisticado, que é esse equipamento do teatro, criando uma nova intermediação e mergulhando num universo que começa já a se distanciar, de alguma maneira, daquela pureza artística, pureza dentro da capacidade artística que se trabalha, que vem se desenvolvendo desde o barroco, pintura ser somente pintura e mais nenhuma outra coisa.”
Gabriel Borba Filho, p. 1 e 2, DT3601 – 1984
(Material fundamental do teatro: o corpo.)
Recorrem a materiais das artes cênicas, mas organizam de outra forma, desestabilizando a estrutura representativa e narrativa do teatro clássico.
“A performance não representa, ela é uma atitude direta. (…) No teatro é uma representação, quer dizer, o ator no teatro está representando. A performance não, ela é a ligação direta do artista com o público. A performance tenta não ser essa representação.”
Nelson Leirner, p. 20, TR 2025 – 1985
“A performance se constitui como linguagem de soma, atingindo a interdisciplinaridade. (…) No teatro, as artes plásticas, a música e a dança organizam-se todas em função de um texto dramático. Na performance, ao contrário, elas se organizam através de processos de justaposição e conservam sua especificidade enquanto linguagens autônomas.”
Silvia Fernandes Telesi, p. 4, DT 3876 – 1990
“A performance possui uma estrutura formada por collage onde vários traços convivem por contiguidade e inviabilizam qualquer linearidade temática. (…) O que interessa é constatar a ruptura da performance com a narrativa. (…) Também por isso a performance afirma-se como o discurso da mis-en-scène. Nela, o espetáculo – iluminação, efeitos visuais e sonoros, uso de mídias – passa a primeiro plano.”
Silvia Fernandes Telesi, p. 5, DT 3876 – 1990
O ambiente do teatro submetido a procedimentos de outras linguagens.
“A experimentação de linguagem fazia dos espetáculos [mais interessantes da década de 80] verdadeiros laboratórios de invenção de procedimentos cênicos. Todos tinham em comum a preocupação com o estudo e a pesquisa e denunciavam em cena o intenso trabalho de preparação teórica e prática que, subsidiando-os, fazia deles expressões artísticas de fronteira. Eles escapavam dos limites estreitos de uma arte única e se movimentavam com desenvoltura dentro de um amplo espectro de procedimentos, recorrendo à recursos de teatro, artes plásticas, música, dança, bem como às novas mídias representadas pelo vídeo e por outros meios de eletronificação. Além disso, todos eles apresentavam uma estrutura fragmentária, bastante distante da relativa unidade dramática presente na maioria das peças em cartaz. Procurado uma pista para desvendar esse todo fragmentário de manifestações cênicas, que nos fornecesse um corpo teórico minimamente definido, encontramos a arte da performance.”
Silvia Fernandes Telesi, p. 2-3, DT 3876 – 1990
Fala-se de criação. De arte, na prática. De experimentar modos, formas, procedimentos. Palavras-chave que se referem ao processo. Processo de criação. Realidade artística?
“Mais interessante que isso, eu acho que é esse processo de destacar a realidade, destacar o processo artístico como um fragmento de realidade.”
Emanuel Mello Pimenta, p. 9, DT 3601 – 1984
“A performance é realmente uma demonstração do processo, do procedimento do artista.”
Gabriel Borba Filho, p. 4 DT 1479 – 1980
O processo aberto, os procedimentos do artista à vista de um público que entra na obra.
“[A performance] é uma modalidade muito viva que possibilita uma participação eloqüente do artista junto ao público.”
Roberto Bicelli, p. 8, TR 2021 – 1985
O processo de criação revelado desmistifica a arte e o artista. A arte aparece como algo acessível, ao alcance de todos, rompendo a fronteira arte-vida. O espectador, em última análise, participa da criação.
“A performance acaba sendo extremamente estimulante e é isso que o artista quer no fundo. No fundo o artista quer estimular as pessoas para elas transformarem a vida, transformarem o cotidiano numa obra de arte. Neste sentido, eles transformam o próprio corpo numa obra de arte, o próprio espaço numa obra de arte e, portanto, a consciência do público também é tomada por essa obra de arte. A maneira do público interagir com isso é se tornar artista também.”
Roberto Bicelli, p. 14, TR 2021 – 1985
O espectador é impelido a novas formas de apreensão da arte e da realidade.
“Caracterizamos a performance primeiramente como um código artístico múltiplo, resultante de emissão multimídia – drama, vídeo, imagens, sons – que provoca no espectador uma recepção mais cognitivo-sensorial que racional.”
Silvia Fernandes Telesi, p. 3, DT 3876 – 1990
A arte que rompe a racionalidade exige do público uma apuração da sensibilidade.
Multiplicidade. Sensorialidade. Simultaneidade.
“[A performance] é uma modalidade que se fixa cada vez mais, adquirindo contornos próprios, apesar de todas as aproximações que você possa fazer com teatro, com happening, com música, com uma série de outras coisas.”
Roberto Bicelli, p. 8, TR 2021 – 1985
A performance se constitui como linguagem mantendo seu caráter livre e fronteiriço. Entre artes.
“[No Fluxus], nos inspirávamos mais no Dadaísmo ou no Futurismo e chegávamos a um gênero de música de ação, a concertos de ação. Os americanos compreenderam a mesma coisa com John Cage.”
Wolf Vostell, p.321, DT3599 – 1983
Entre artes e entre vida e arte.
“Gostaria que se pudesse considerar a vida cotidiana como teatro.”
John Cage, p. 318, DT3599 – 1983
“No zen budismo, nada é bom ou mau, ou feio ou bonito… a arte não deve ser diferente da vida, mas uma ação com a vida; como tudo na vida, com seus acidentes, suas mudanças, variedade, desordem e apenas belezas momentâneas.”
John Cage in Lygia Arcuri Eluf, p.17, DT 3604 – 1987
Outro conceito-chave é o efêmero. Como na vida.
“Performance é uma coisa muito perecível, é só naquele momento, depois some.”
Aguilar, p. 10 – FT0491 – 1980
Nisto, distingue-se uma diferença crucial entre performance e happening, relação sempre citada e bravamente discutida em um dos documentos do Arquivo Multimeios, um debate entre performers:
“A grande diferença é que a performance é fechada, é definida, tem um projeto. E o happening você tem uma idéia, é aquela coisa livre, que conforme foi, surge. O happening nunca pode ser repetido. A performance sim.”
Artur Matuck, p. 1 DT3602 – 1984
“[Sobre a performance] Ela tem um projeto, ela tem um ensaio, é como um trabalho que é esboçado mesmo, mas ela ta sujeita na hora da finalização a ter uma dose de improvisação.”
Hamilton Viana Galvão, p. 3. TR 2223 – 1984
“Eu acho que a performance dá significado à ação do artista. Eu acho que dá muita ênfase à irrepetibilidade. Dá completa ênfase à irrepetibilidade. Pelo menos uma das qualidades que eu vejo em performances interessantes são aquelas que propõem uma estrutura que dentro dessa estrutura tem o incidental, a interação com o público, a mudança, a partir dessa estrutura. Isso é uma performance.(…)[Depoimento seguido de confusão apontada na transcrição] Eu acho que o valor da performance está no impacto daquela ação, que acontece naquela circunstância, naquele momento, e se for repetido pode ter um impacto completamente diferente.”
Artur Matuck, p. 9 e 10, DT3601 – 1984
Podemos fazer um paralelo entre a idéia de romper a fronteira vida-arte com a potencialização do “intérprete”, por assim dizer, o artista, que se coloca na obra. Diferente do teatro, com a perspectiva do personagem, a performance trabalha a idéia da persona, que integra o artista ao personagem, ou ainda, esse personagem (persona) vai ser um personagem de si mesmo. Encontramos nas citações algumas falas sobre esse assunto, abordado neste exemplo como auto-representação:
“Também característica da performance é a auto-representação. O artista representa algo com base em si mesmo, escolhendo a si próprio como contexto para o trabalho artístico.”
Silvia Fernandes Telesi, p.5, DT 3876 – 1990
A performance é, historicamente, um rompimento com os modelos tradicionais da arte.
“[A performance] tem sido usada muitas vezes como forma de contestar as convenções da arte oficial. Dentro da história das vanguardas do século XX a performance tem sido ‘a vanguarda das vanguardas’”
Roselee Goldberg,in Live Art 1909 to the present
Lygia Arcuri Eluf, p. 2, DT 3604 – 1987
“Al Hansen voltou-se para a performance numa revolta ‘contra a completa ausência de qualquer coisa interessante nas formas mais convencionais do teatro’. O trabalho da arte que mais o interessava era aquele que incluía o espectador e criava uma interdisciplinariedade com as diferentes formas de arte.”
Lygia Arcuri Eluf, p.19, DT 3604 – 1987
Seguem alguns apontamentos sobre o início da performance. Por sua natureza não-linear e diversa, percebemos algumas possibilidades diferentes de organização de sua história. No entanto, elas não chegam a entrar em conflito, podem se complementar.
“Na tentativa de reconstrução dessa trajetória, surgem dois pontos fundamentais. Primeiro, que os artistas sempre se utilizaram da performance como um entre os muitos meios de expressar suas idéias, como, por exemplo, as experimentações e ‘quadros vivos’ de Leonardo Da Vinci, feitas para uma platéia convidada (…). Em segundo lugar, é importante lembrar que estes eventos foram deixados de lado do processo de avaliação da história oficial da arte mais pela dificuldade encontrada em enquadrá-los dentro desse processo do que por simples omissão.”
Lygia Arcuri Eluf, p. 2. DT 3604 – 1987
“As primeiras performances futuristas foram mais manifestos do que propriamente ação. Mais propaganda do que real produção. (…)
Sua história começa em 1909 em Paris, mais precisamente em 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do 1º Manifesto Futurista no jornal Le Figaro. Seu autor, o poeta italiano Fellipo Tommaso Marinetti, escolheu o público parisiense como alvo de seu manifesto de ‘violência incendiária’.(…)Seguiram-se, então, as noites futuristas, nas quais Marinetti esbravejava contra o culto da tradição e comercialização da arte.”
Lygia Arcuri Eluf, p. 4-5. DT3604 – 1987
“[As festividades da Bauhaus] propiciavam ao grupo a oportunidade de experimentar novas idéias performáticas. (…) Foi a essas atividades que Schlemmer atribuiu o espírito original da performance da Bauhaus: ‘desde o primeiro dia de sua existência, a Bauhaus sentiu o impulso para o teatro criativo; desse primeiro dia em diante o instinto da performance estava presente. Ele expressava-se em nossas exuberantes festas, nas improvisações e nas máscaras e figurinos que criávamos’. É provavelmente um legado dos dadaístas o ridicularizar automaticamente tudo que precedesse a ética e a solenidade.”
Lygia Arcuri Eluf, p. 11-12, DT 3604 – 1987
“Schlemmer tornou as performances o foco das atividades da Bauhaus rapidamente recusando-se em aceitar os limites de categoria de arte.”
Lygia Arcuri Eluf, p. 11, DT 3604 – 1987
[Falando da época de Luiz XV] “Tinha um barco com uma equipe de marinheiros venezianos fixa, que montava todo dia o barco e velejeva, fazia a viagem e voltava. Todo dia a mesma viagem. Se de repente você passa na janela, tem um barco passando. Então, janela para eles era outro conceito também, é um quadrinho vivo do mundo. Não é como hoje, os arquitetos modernos não sabem nada pra que serve a janela. Então, isto tudo você pensa, vai lentamente desembocar na performance. Então é uma história mais comprida, mais sutil. E estão faltando dados para você estudar e para os que querem fazer… Eles estão achando que é uma coisa contemporânea e não é uma coisa contemporânea. Ela tem uma grande tradição.”
Wesley Duke Lee, p.3 e 4. TR 2024 – 1985
Hibridismo de linguagens: pelo agrupamento, chega-se numa coisa nova. Criação. Criatura.
“A performance, na minha cabeça, ela se relacionava com essa necessidade de experimentar. O que é experimentar? É você acreditar mesmo.”
Ivald Granato, p. 11. TR 2507 – 1984
“Os artistas da performance caracterizam-se como pesquisadores, “cientistas da arte”. Ao desenvolverem suas experimentações chegam a descobertas que são, posteriormente, aproveitadas pelas formas de arte mais tradicionais.”
Silvia Fernandes Telesi, p.7, DT 3876 – 1990
“A transformação de elementos de outros veículos define a performance como uma linguagem artística interessada na reversão das mídias. Ela toma suas técnicas, observa-as e as modifica pelo acréscimo de novos significados ou pela subversão de seus usos.”
Silvia Fernandes Telesi, p.6, DT 3876 – 1990
Para além da questão artística, temos a proposição de transformação da cultura, mesmo quando se fala de produção artística.
“O que dá força à performance é o fato dela se inscrever numa linha da produção cultural que realmente vai tentando fugir da ideologia do produto artístico e vai tentando passar para uma produção, um fazer artístico. Isso é uma enorme de uma revolução em termos não só de arte como de cultura, como até de sociedade, se ela conseguir projetar essa proposta pelo resto da sociedade e romper todo um esquema de produção de arte, que no fundo estava inteiramente calcada em cima do sistema do regime de produção da sociedade capitalista como um todo.”
Hudnilson, p. 8, DT 3601 – 1984
Afinal,
“Performance, num determinado sentido, é basicamente a transmissão de uma idéia, de uma linguagem do artista em questão, através de uma série de movimentos, de uma determinada série de evoluções que vão justificar essa idéia.”
Aguilar, p. 3, DT 1479 – 1980