ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações
Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSPArquivo de música
Paulo Brusky
Performance, o Moraes define muito bem, quando ele fala do artista como motor da obra.
Na performance você reúne tudo, reúne teatro, artes plásticas, todas as correntes você sintetiza na performance. (…) a música, o cinema, tudo, vc sintetiza.
Paulo Brusky p. 2. TR 2022
1984
Silvia Fernandes Telesi
A performance se constitui como linguagem de soma, atingindo a interdisciplinaridade. (…) No teatro, as artes plásticas, a música e a dança organizam-se todas em função de um texto dramático. Na performance, ao contrário, elas se organizam através de processos de justaposição e conservam sua especificidade enquanto linguagens autônomas.
Silvia Fernandes Telesi, p.4, DT 3876
1990
Silvia Fernandes Telesi
A experimentação de linguagem fazia dos espetáculos [mais interessantes da década de 80] verdadeiros laboratórios de invenção de procedimentos cênicos. Todos tinham em comum a preocupação com o estudo e a pesquisa e denunciavam em cena o intenso trabalho de preparação teórica e prática que, subsidiando-os, fazia deles expressões artísticas de fronteira. Eles escapavam dos limites estreitos de uma arte única e se movimentavam com desenvoltura dentro de um amplo espectro de procedimentos, recorrendo à recursos de teatro, artes plásticas, música, dança, bem como às novas mídias representadas pelo video e por outros meios de eletronificação. Além disso, todos eles apresentavam uma estrutura fragmentária, bastante distante da relativa unidade dramática presente na maioria das peças em cartaz. Procurado uma pista para desvendar esse todo fragmentário de manifestações cênicas, que nos fornecesse um corpo teórico minimamente definido, encontramos a arte da performance.
Silvia Fernandes Telesi, p.2-3, DT 3876
1990
Ivald Granato
Na performance você pode reunir a música, a dança, é claro que pode, ela pode reunir tudo. Mas o mais interessante é você soltar o seu espírito criativo dentro dela, como ela falou [uma moça do público], eu acho que performance pode ter uma utilidade no seu trabalho, na sua atividade, te deixar mais livre. Eu acredito que a performance na minha vida foi muito importante, pra minha pintura. A minha pintura evoluiu, mas evoluiu muito com a performance, porque tem mais leveza pro corpo, a pintura sai mais solta, ficou melhor.
Ivald Granato p. 15. TR2507
1984
Roberto Bicelli
[Performance] é uma modalidade que se fixa cada vez mais, adquirindo contornos próprios, apesar de todas as aproximações que você possa fazer com teatro, com happening, com música, com uma série de outras coisas. É uma modalidade muita viva que possibilita uma participação eloqüente do artista junto ao público.
Roberto Bicelli, p.8, TR 2021
1985
John Cage
“Minha peça favorita é a que nós ouvimos o tempo todo se ficamos calados”.
John Cage
in Lygia Arcuri Eluf, p.17, DT 3604.
1987
Lygia Arcuri Eluf
Tendo dançado por muitos anos como a figura principal na Companhia de Marta Graham [ícone da dança moderna nos EUA], Merce Cunningham logo abandonou o estilo dramático e narrativo de Graham, bem como sua dependência às marcações rítmicas da música. Como Cage, encontrava a música nos sons cotidianos de nosso “environment”, e também para ele, andar, correr, ficar de pé, pular e toda a gama de possibilidades de movimentos naturais poderia ser considerada dança.
Lygia Arcuri Eluf, p.16, DT 3604.
1987
Lygia Arcuri Eluf
De acordo com Cage, para se entender o sentido da “renascença musical e a possibilidade de invenção” que havia acontecido por volta de 1935, deveria se retornar a Luigi Russolo, “A arte dos ruídos barulhentos” e Henry Cowell, ”Novas pesquisas musicais”. Ele também referendava seus leitores a McLuhan, Norman O.Brown, Fuller e Duchamp: “uma maneira de escrever música: estudar Duchamp”.
Lygia Arcuri Eluf, p.15, DT 3604.
1987
Lygia Arcuri Eluf
Em 1937, John Cage expressou suas idéias num manifesto chamado “O futuro da música”, baseando-se na idéia de que “onde quer que você esteja o que você escuta é música: tanto o som de um caminhão, da chuva ou da estática do rádio são fascinantes”. Cage pretendia captar e controlar esses sons para usá-los não como efeitos sonoros, mas como instrumentos musicais.
Lygia Arcuri Eluf, p.14, DT 3604.
1987
Lygia Arcuri Eluf
Em 1936, Albers chamou seu colega da Bauhaus Xanti Schawinsky para ajudá-lo. Como lhe foi dada liberdade para criar seu próprio programa, Schawinsky logo delineou seus estudos de performances como uma extensão das experimentações que haviam sido feitas na Bauhaus. “Esse curso não é nenhum treino para nenhum tipo especial de teatro contemporâneo; é um estudo geral de um fenômeno fundamental: espaço, cor, forma, luz, som, movimento, música, tempo; é um método educacional que almeja o intercâmbio com as artes e ciências usando o palco como laboratório e lugar para a ação e experimentação; o trabalho que realizamos é um conceito pictórico formal; é um teatro visual”, explicou Schawinsky.
Lygia Arcuri Eluf, p.13-14, DT 3604.
1987
Wolf Vostell
(…) Nos inspirávamos mais no Dadaísmo ou no Futurismo e chegávamos a um gênero de música de ação, a concertos de ação. Os americanos compreenderam a mesma coisa com Jonh Cage.
Wolf Vostell – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 321. DT3599
1983
Wolf Vostell
O artista não age mais somente diante do público, mas com o público. Isto é, as obras de arte, sejam música, ambientes ou ações, são vivas. É um ponto totalmente crucial, segundo Picasso. A arte vive e toma forma por um instante, identifica-se ao sistema nervoso do ser humano. Somente a partir do fluxos todos os sentidos e o corpo são envolvidos.
Wolf Vostell – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 319. DT3599
1983
Wolf Vostell
A música Fluxos não é uma música feita a partir de sons como era mais ou menos a música concreta dos franceses após 1945: circulavam com um gravador e gravavam os barulhos da rua. O Fluxos também nada tem haver com a música sintética como era produzida por Stockhausen em sua música eletrônica. São procedimentos musicais que nascem ou são produzidos através de uma ação artística, seja viva, seja carregada de imagens. Quer dizer que, durante a maior parte do tempo, o procedimento visual e acústico constitui simultaneamente um acontecimento único, e o efeito visual não deve ser dissociado do Fluxos. Assim, quando ocorre um concerto de Fluxos, o visual é um elemento muito importante, é apenas à partir do procedimento visual que o ruído tornou-se possível. No fundo, é uma música “livre” criada por procedimentos “live”: música de acontecimentos!
Wolf Vostell – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 319. DT3599
1983
Wolf Vostell
Foi minha ascensão no Fluxos: interpretar como fragmento musical os barulhos estranhos de minhas ações, como o arrancar de painéis de anúncio, a destruição de um aparelho de televisão, a demolição de uma casa com o auxílio de um martelo pendular, os ruídos de uma parede desabando. Essa é a música que nasceu das ações da de-colagem.
Wolf Vostell – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 319. DT3599
1983
Wolf Vostell
A pretensão de que tudo possa ser música é a proeza do Fluxos, assim como sua unidade.
Wolf Vostell – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 319. DT3599
1983
Wolf Vostell
Inicialmente, o Fluxos era um estado de espírito, um modo de ser mais forte que o do happenig. O Fluxos expandiu-se amplamente nos primórdios dos anos 60, a pesar de, historicamente, situar-se após o happenig. Penso também que sem o happenig o Fluxos não teria ocorrido. Foi a variedade de sua estética musical que nos aproximou do Fluxos, este modo de interpretar, que ia da música de ação, de vida, de pensamento à música de “colagem”, à música de comportamento até a música invisível. Este espectro que concebe a vida não somente como uma obra de arte – como mencionei em 1961: a vida é uma obra de arte, a obra de arte é a vida -, mas que concebe a vida inteira como uma música, como um processo musical. É a filosofia em relevo do Fluxos(…).
Wolf Vostell - Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo. pg 319. DT3599
1983
Gino Di Maggio
AVISOS AO VISITANTE
NÃO É NECESSÁRIO VISITAR A EXPOSIÇÃO
UMA EXPOSIÇÃO FLUXOS NUNCA É UMA EXPOSIÇÃO FLUXOS
FLUXOS É TROCAR AS OBRAS SEM DIFICULDADE
O PROFISSIONALISMO NÃO TEM NADA HAVER COM FLUXOS
FLUXOS É TAMBÉM NÃO OUVIR A MÚSICA FLUXOS
PARA SER FLUXOS É SÓ DIZER SOU FLUXOS
SÃO FLUXOS TAMBÉM AQUELES QUE NÃO SABEM QUE SÃO FLUXOS
Gino Di Maggio – Catálogo geral 17ª Bienal de São Paulo pg 316. DT3599
1983
VIDEO ART USA
Em um ensaio escrito em 1965, Nam June Paik observou que a “arte cibernetizada é muito importante, porém arte para a vida cibernetizada é ainda mais importante; contudo a vida não precisa ser cibernetizada”. Com seus múltiplos interesses, como Zen, cibernética, composição musical e uma política global dedicada à sobrevivência e à mudança, Paik literalmente abriu a picada para toda uma geração de artistas.
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 12. CA080
1975
Gabriel Borba Filho
(…) a performance tira do teatro, tira da música, enfim, de outras atividades, aquilo que ela tem de plástico, ou seja, de moldável.
Gabriel Borba Filho, pg 9 e 10. DT1479
1980
Aguilar
A performance pode vir da pintura, pode vir da música, pode vir de diversas áreas. Então você, através dessa densidade, projeta a idéia.
Aguilar, pg 3 DT1479
1980
Aguilar
As maiores performances vem da música. Muita gente que faz performance veio da música.
Aguilar, pg 9. DT1479
1980
Lygia Arcuri Eluf
Manifestos e performances tem sido, desde os futuristas até hoje, a expressão dos discidentes que tentam encontrar outros meios de avaliar a experiência da arte no cotidiano, e suas relações com a cultura. Por essa razão, sua base tem sido quase sempre anárquica, e ainda mais através de sua própria natureza, a performance desafia uma definição precisa ou fácil, que fica sempre além da simples afirmação de que é “arte viva feita pelos artistas” (Roselee Goldberg). Qualquer outra definição mais rígida anularia a possibilidade de existência da própria performance, pois ela engloba livremente um grande número de referêcias tais como literatura, comunicação visual, cinema, teatro, dança, música, arquitetura, (…), pintura, escultura e fantasia. Pode-se dizer que nenhuma forma de expressão artística tenha um âmbito tão sem limites. Cada performer cria seu próprio processo, com sua definição e a maneira de execução próprias. De manifestos que acompanham grande parte desse trabalho, estabelecem uma ‘moldura’ e uma visão utópica de uma arte abrangente, que nenhuma pintura, escultura ou qualquer outra forma de manifestação artística pode desejar conseguir por si só.
Lygia Arcuri Eluf, pg 2 e 3. DT3604
pesquisa finalizada em 1987