ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações
Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSPArquivo de pintura
Lygia Arcuri Eluf
Objetos e materiais tornavam-se protagonistas metafóricos nas performances de Joseph Beuys. Na Galeria Schmela, em Düsseldorf, em 1965, Beuys, com a cabeça coberta de mel e folheada a ouro, caminhava silencioso pela exposição de seus desenhos e pinturas carregando uma lebre morta no colo. Então, sentou-se num banco num canto escondido e começou a explicar ao animal morto o significado de seus trabalhos: “porque eu realmente não gosto de explicá-los para as pessoas” e “mesmo numa lebre morta existe mais sensibilidade e conhecimento instintivo que em alguns homens com sua racionalidade ‘stubborn’ [obstinada]”.
Lygia Arcuri Eluf, p.24, DT 3604.
1987
Ivald Granato
Na performance você pode reunir a música, a dança, é claro que pode, ela pode reunir tudo. Mas o mais interessante é você soltar o seu espírito criativo dentro dela, como ela falou [uma moça do público], eu acho que performance pode ter uma utilidade no seu trabalho, na sua atividade, te deixar mais livre. Eu acredito que a performance na minha vida foi muito importante, pra minha pintura. A minha pintura evoluiu, mas evoluiu muito com a performance, porque tem mais leveza pro corpo, a pintura sai mais solta, ficou melhor.
Ivald Granato p. 15. TR2507
1984
Nelson Leirner
A performance difere das outras terminologias de arte tais como pintura, gravura, desenho, por ela não ser uma arte representativa. A performance não representa, ela é uma atitude direta. (…) No teatro é uma representação, quer dizer, o ator no teatro está representando. A performance não, ela é a ligação direta do artista com o público. A performance tenta não ser essa representação. (…) Se você vai diante de um público, pega um revólver com uma bala de pólvora seca – você vai só ouvir o barulho – e finge morrer, você está teatralizando, você esta representando. (…) Agora, pra mim uma performance é uma atitude direta. Para mim, a performance seria dar o fim de verdade e parar no hospital. A performance seria você se jogar contra uma parede para medir até onde a velocidade do seu corpo em contato com determinado obstáculo vá causar a você tais impressões. E, posteriormente, a documentação das impressões.
Nelson Leirner, p.20, TR 2025
1985
Por que a performance ? A performance foi uma maneira que eu tive de tirar o meio entre o artista e a coisa do real. Ou seja, se faço pintura, eu tenho a tela entre eu e o real.
Gabriel Borba Filho, p.1, TR 2025
1985
Hamilton Viana Galvão
Bom, a performance é a pintura em movimento pra mim.
Hamilton Viana Galvão p. 3. TR 2223
1984
Lygia Arcuri Eluf
[Schlemmer] Em suas pinturas e performances experimentais a pesquisa fundamental era com o espaço. A pintura delineava os elementos do espaço, enquanto que as performances propiciavam uma experiência, uma vivência de espaço.
Lygia Arcuri Eluf pág 12, DT 3604.
1987
Lygia Arcuri Eluf
De certa forma, os futuristas/construtivistas russos têm como marco do início do uso da performance os mesmos motivos que levaram os italianos a utilizá-la. Era a reação dos artistas contra a velha ordem estabelecida. Mais do que isso, era uma reação contra o regime czarista, a pintura importada e os moldes do impressionismo e cubismo que se trazia da Europa.
Lygia Arcuri Eluf pág 5, DT 3604.
1987
Guto Lacaz
Eu acho bom definir, ter definição por mais que as linguagens possam se unir, se relacionar, é bom ter claro o lugar de cada uma delas. É bom saber o que é que acontece na pintura, no teatro e na performance. Eu tenho uma definição acadêmica do que é performance: uma modalidade artística em trânsito entre as artes plásticas e as artes cênicas.
Guto, pg 4, DT3601
1984
Gabriel Borba Filho
De repente, o artista plástico deixa de manipular o seu material tradicional, pincel, tela, etc, e passa a manipular um material bastante sofisticado, que é esse equipamento do teatro, criando uma nova intermediação e mergulhando num universo que começa já a se distanciar, de alguma maneira, daquela pureza artística, pureza dentro da capacidade artística que se trabalha, que vem se desenvolvendo desde o barroco. Pintura ser somente pintura e mais nenhuma outra coisa (…).
Gabriel Borba Filho, pg 1 e 2, DT3601
1984
(Falando sobre performance)
Aguilar
A performance pode vir da pintura, pode vir da música, pode vir de diversas áreas. Então você, através dessa densidade, projeta a idéia.
Aguilar, pg 3 DT1479
1980
Marcello Nitsche
(…) eu acho inclusive que o tempo da performance é o tempo da pintura. Não é uma coisa narrativa, é uma coisa completamente diferente. Na pintura você tem a imagem em bloco, você faz uma leitura diferente (…)
Marcello Nitsche, pg 9. DT1479
1980
Lygia Arcuri Eluf
Manifestos e performances tem sido, desde os futuristas até hoje, a expressão dos discidentes que tentam encontrar outros meios de avaliar a experiência da arte no cotidiano, e suas relações com a cultura. Por essa razão, sua base tem sido quase sempre anárquica, e ainda mais através de sua própria natureza, a performance desafia uma definição precisa ou fácil, que fica sempre além da simples afirmação de que é “arte viva feita pelos artistas” (Roselee Goldberg). Qualquer outra definição mais rígida anularia a possibilidade de existência da própria performance, pois ela engloba livremente um grande número de referêcias tais como literatura, comunicação visual, cinema, teatro, dança, música, arquitetura, (…), pintura, escultura e fantasia. Pode-se dizer que nenhuma forma de expressão artística tenha um âmbito tão sem limites. Cada performer cria seu próprio processo, com sua definição e a maneira de execução próprias. De manifestos que acompanham grande parte desse trabalho, estabelecem uma ‘moldura’ e uma visão utópica de uma arte abrangente, que nenhuma pintura, escultura ou qualquer outra forma de manifestação artística pode desejar conseguir por si só.
Lygia Arcuri Eluf, pg 2 e 3. DT3604
pesquisa finalizada em 1987






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