ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações

Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSP

Arquivo de teatro

Nelson Leirner

O teatro precisa do público pelas reações. (…) Agora, se eu pego e simplesmente me fecho e faço a minha performance, fiz. Há muitos casos nos EUA de artistas fazerem suas performances independente do público, (…) como aquele professor da Universidade de Berkley, de repente saiu da aula de tal maneira que os alunos começaram a acompanhá-lo e ele simplesmente andou e, conforme ele ia andando, os alunos iam acompanhando sem falar nada. Até que eles andaram 12 horas e sobrou só um aluno andando grudado a ele. Isso pra mim é realmente uma performance. E aonde é que a performance pode ter acontecido ? No momento em que houve a documentação, a única coisa que sobrou disso. Não teve público, ou o público foram aquelas 10 pessoas que aconteceram junto, que fizeram a performance também. Mas depois documenta, porque todo artista tem que documentar seu trabalho. 

Nelson Leirner, p.22-23, TR 2025

1985

Paulo Brusky

Performance, o Moraes define muito bem, quando ele fala do artista como motor da obra.

Na performance você reúne tudo, reúne teatro, artes plásticas, todas as correntes você sintetiza na performance. (…) a música, o cinema, tudo, vc sintetiza.

Paulo Brusky    p. 2. TR 2022

1984

Silvia Fernandes Telesi

A performance se constitui como linguagem de soma, atingindo a interdisciplinaridade. (…) No teatro, as artes plásticas, a música e a dança organizam-se todas em função de um texto dramático. Na performance, ao contrário, elas se organizam através de processos de justaposição e conservam sua especificidade enquanto linguagens autônomas.

Silvia Fernandes Telesi, p.4, DT 3876

1990

Silvia Fernandes Telesi

A experimentação de linguagem fazia dos espetáculos [mais interessantes da década de 80] verdadeiros laboratórios de invenção de procedimentos cênicos. Todos tinham em comum a preocupação com o estudo e a pesquisa e denunciavam em cena o intenso trabalho de preparação teórica e prática que, subsidiando-os, fazia deles expressões artísticas de fronteira. Eles escapavam dos limites estreitos de uma arte única e se movimentavam com desenvoltura dentro de um amplo espectro de procedimentos, recorrendo à recursos de teatro, artes plásticas, música, dança, bem como às novas mídias representadas pelo video e por outros meios de eletronificação. Além disso, todos eles apresentavam uma estrutura fragmentária, bastante distante da relativa unidade dramática presente na maioria das peças em cartaz. Procurado uma pista para desvendar esse todo fragmentário de manifestações cênicas, que nos fornecesse um corpo teórico minimamente definido, encontramos a arte da performance.

Silvia Fernandes Telesi, p.2-3, DT 3876

1990

Silvia Fernandes Telesi

A nota mais característica do teatro paulista na década de 80 foi o retorno à expressão individual.

Silvia Fernandes Telesi, p.1, DT 3876

1990

Nelson Leirner

A performance difere das outras terminologias de arte tais como pintura, gravura, desenho, por ela não ser uma arte representativa. A performance não representa, ela é uma atitude direta. (…) No teatro é uma representação, quer dizer, o ator no teatro está representando. A performance não, ela é a ligação direta do artista com o público. A performance tenta não ser essa representação. (…) Se você vai diante de um público, pega um revólver com uma bala de pólvora seca – você vai só ouvir o barulho – e finge morrer, você está teatralizando, você esta representando. (…) Agora, pra mim uma performance é uma atitude direta. Para mim, a performance seria dar o fim de verdade e parar no hospital. A performance seria você se jogar contra uma parede para medir até onde a velocidade do seu corpo em contato com determinado obstáculo vá causar a você tais impressões. E, posteriormente, a documentação das impressões.

Nelson Leirner, p.20, TR 2025

1985

Roberto Bicelli

[Performance] é uma modalidade que se fixa cada vez mais, adquirindo contornos próprios, apesar de todas as aproximações que você possa fazer com teatro, com happening, com música, com uma série de outras coisas. É uma modalidade muita viva que possibilita uma participação eloqüente do artista junto ao público.

Roberto Bicelli, p.8, TR 2021

1985

Lygia Arcuri Eluf

Al Hansen voltou-se para a performance numa revolta “contra a completa ausência de qualquer coisa interessante nas formas mais convencionais do teatro”. O trabalho da arte que mais o interessava era aquele que incluía o espectador e criava uma interdisciplinariedade com as diferentes formas de arte.

Lygia Arcuri Eluf, p.19, DT 3604.

1987

Lygia Arcuri Eluf

Em 1936, Albers chamou seu colega da Bauhaus Xanti Schawinsky para ajudá-lo. Como lhe foi dada liberdade para criar seu próprio programa, Schawinsky logo delineou seus estudos de performances como uma extensão das experimentações que haviam sido feitas na Bauhaus. “Esse curso não é nenhum treino para nenhum tipo especial de teatro contemporâneo; é um estudo geral de um fenômeno fundamental: espaço, cor, forma, luz, som, movimento, música, tempo; é um método educacional que almeja o intercâmbio com as artes e ciências usando o palco como laboratório e lugar para a ação e experimentação; o trabalho que realizamos é um conceito pictórico formal; é um teatro visual”, explicou Schawinsky.

Lygia Arcuri Eluf, p.13-14, DT 3604.

1987

QUE ARTE É ESSA?

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QUE ARTE É ESSA?

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Lygia Arcuri Eluf

[As festividades da Bauhaus] propiciavam ao grupo a oportunidade de experimentar novas idéias performáticas. (…) Foi a essas atividades que Schlemmer atribuiu o espírito original da performance da Bauhaus: “desde o primeiro dia de sua existência, a Bauhaus sentiu o impulso para o teatro criativo; desse primeiro dia em diante o instinto da performance estava presente. Ele expressava-se em nossas exuberantes festas, nas improvisações e nas máscaras e figurinos que criávamos”. É provavelmente um legado dos dadaístas de ridicularizar automaticamente tudo que precedesse a ética e a solenidade.

Lygia Arcuri Eluf  pág 11-12, DT 3604.

1987

Jonh Cage

 Gostaria que se pudesse considerar a vida cotidiana como teatro.

Jonh Cage – Catálogo geral 17ª bienal de São Paulo pg 318 DT3599

1983

Aguilar

A televisão brasileira não tem iteresse [na videoarte], ela está muito viciada dentro de um determinado tipo de imagem que é o chamado – imagem global de qualidade -, em que os atores interpretam. Ainda é uma linguagem de teatro e não uma linguagem de video.

Aguilar, pg 4 – FT0491

1980

Guto Lacaz

Eu acho bom definir, ter definição por mais que as linguagens possam se unir, se relacionar, é bom ter claro o lugar de cada uma delas. É bom saber o que é que acontece na pintura, no teatro e na performance. Eu tenho uma definição acadêmica do que é performance: uma modalidade artística em trânsito entre as artes plásticas e as artes cênicas.

Guto,  pg 4, DT3601 

1984

Emanuel

Nossa cultura é semi-oriental e semi-ocidental. Isso altera todo o processo. Não existe no Brasil a mesma visão departamentalizadora. O confronto específico entre teatro, cinema, performance, na verdade, a tendência na minha opinião é se mesclar num outro organismo.

Emanuel, pg 3, DT3601

1984

Gabriel Borba Filho

De repente, o artista plástico deixa de manipular o seu material tradicional, pincel, tela, etc, e passa a manipular um material bastante sofisticado, que é esse equipamento do teatro, criando uma nova intermediação e mergulhando num universo que começa já a se distanciar, de alguma maneira, daquela pureza artística, pureza dentro da capacidade artística que se trabalha, que vem se desenvolvendo desde o barroco. Pintura ser somente pintura e mais nenhuma outra coisa (…).

Gabriel Borba Filho, pg 1 e 2, DT3601

1984

(Falando sobre performance)

Gabriel Borba Filho

(…) a performance tira do teatro, tira da música, enfim, de outras atividades, aquilo que ela tem de plástico, ou seja, de moldável.

Gabriel Borba Filho, pg 9 e 10.  DT1479  

1980

Lygia Arcuri Eluf

Manifestos e performances tem sido, desde os futuristas até hoje, a expressão dos discidentes que tentam encontrar outros meios de avaliar a experiência da arte no cotidiano, e suas relações com a cultura. Por essa razão, sua base tem sido quase sempre anárquica, e ainda mais através de sua própria natureza, a performance desafia uma definição precisa ou fácil, que fica sempre além da simples afirmação de que é “arte viva feita pelos artistas” (Roselee Goldberg). Qualquer outra definição mais rígida anularia a possibilidade de existência da própria performance, pois ela engloba livremente um grande número de referêcias tais como literatura, comunicação visual, cinema, teatro, dança, música, arquitetura, (…), pintura, escultura e fantasia. Pode-se dizer que nenhuma forma de expressão artística tenha um âmbito tão sem limites. Cada performer cria seu próprio processo, com sua definição e a maneira de execução próprias. De manifestos que acompanham grande parte desse trabalho, estabelecem uma ‘moldura’ e uma visão utópica de uma arte abrangente, que nenhuma pintura, escultura ou qualquer outra forma  de manifestação artística pode desejar conseguir por si só.

Lygia Arcuri Eluf, pg 2 e 3. DT3604

pesquisa finalizada em 1987

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