ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações
Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSPArquivo de videoarte
Gabriel Borba Filho
Em 1970-71, eu fazia algumas coisas num estúdio da TV da ECA com algumas pessoas. Essa coisa veio a ser chamada de videoarte e, muito mais tarde, coisas dessa linha, que eu fiz em 76, 78, é que chamaram de videoperformance. Era uma ação que se desenvolvia entre pessoas, entre pessoas e coisas, num estúdio, e que tinha uma orientação muito clara de ser uma ação para registro televisivo.
Gabriel Borba Filho, p.2, TR 2025
1985
Walter Silveira
O video deixou de ser aquele programa com começo, meio e fim para ser uma coisa em que a discussão do espaço/tempo está mais embutida no trabalho. O lugar de colocação desses trabalhos seria nas galerias, nos museus, no Centro Cultural e em festivais.
Walter Silveira, p. 4, TR2133
1990
Walter Silveira
A coisa que falta e que agora começa a aparecer são salas e espaços voltados para exibição e um incentivo maior também para a produção e desenvolvimento, não do video genericamente, mas do video experimental, do videoarte, do pensamento videográfico.
Walter Silveira, p. 3-4, TR 2133
1990
Walter Zanini
No Brasil, a linguagem do video tem sido geralmente uma ação programada pelo artista, valendo-se do sistema portátil de 1/2 polegada. Performances de auto-análise, intervenções na tela do televisor, análises das condições de vivência do meio e ainda registros de atividades conceptuais que exploram o espaço/tempo do video assinalam uma parte essencial desse processo.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
Constata-se [na videoarte] a predominância da exploração visual na Europa, as múltiplas investigações da realidade nos EUA, favorecidas pelo seu hardware e uma idiossincrasia de elementos narrativos (ênfase no discurso verbal) nas vanguardas canadenses. Nos Brasileiros e outros latino-americanos, observam-se interesses tanto no que diz respeito a ideários estruturais quanto (principalmente) no que se refere a abordagens de problemas de conteúdo, onde se sobressaem os de natureza sócio-cultural, em ambos se situando a própria crítica da televisão e sua força de impacto em largos extratos de população culturalmente desamparadas. Estas diferenciações não podem obviamente se configurar em termos absolutos (…).
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
Os artistas do video exercem-se no plano da intersemioticidade. Sua atitude fundamental é a da renúncia aos contextos que privilegiam os atributos estéticos da arte. Idéia e signo são os referenciais de sua individuação aplicados no sentido interrogativo dos níveis da realidade. À finitude da obra tradicional opõem uma sistemática de trabalho alicerçada no continuum processual.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
A história da videoarte, portable production, demonstrou o quanto a criatividade de seus autores esbarrou na indiferença e na hostilidade dos receptores. Incompreensível, aborrecível, desinteressante, inócua, eram e são adjetivos habituais a que se acrescenta a sua subestimação motivada pelos chamados “defeitos” ou “enganos” técnicos, que contrastam com a perfeição e a sofisticação da tela fosforescente da televisão de estúdio. Alguns teóricos do video têm assinalado que o “aborrecimento” do video não seria maior que o da TV comercial, a cujos programas intercalados intermitentemente por interrupções de propaganda, promoções da estação, spots, etc., todos, porém, bem ou mal se acostumaram.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
Sua atuação [do videoarte] tem-se revelado freqüentemente na direção de uma análise da própria sensibilidade, de um auto-estudo ou na investigação crítica da realidade social, onde procuram trazer com sua imaginária uma contribuição e interferência nos contextos de vivência massificada. A desalienação do indivíduo diante das pressões que estreitam sua consciência tem constituído uma de suas intenções essenciais, e nesse sentido a imagem eletrônica que realizam configura-se enquanto uma contra-televisão.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
A videoarte pertence à galáxia da multimídia, ou seja, às múltiplas produções de linguagem que se comportam em níveis operacionais completamente distintos daqueles que identificam a obra única, inserida nos contextos da cotaçao de mercado, não significando isso que um video-cassete ou um livro-de-artista não tenham um preço. É claro que eles o têm, mas nenhum paralelo poderia ser traçado aproximando a distância que separa essas duas realidades profundamente divergentes.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
Todo potencial da televisão dirige-se à apreensão da realidade nos mais penetrantes aspectos de sua imediaticidade. As qualidades estruturais específicas da TV tem sido estudadas frequentemente na análise comparativa com o cinema. Um depoimento de Frank Gillette refere-se às naturezas intrínsecas da luz do cinema e da luz do video: nesta “você olha na fonte da luz, e no filme você olha com a fonte da luz” (conforme Willoughby Sharp). Os contrastes que separam a rapidez da informação proporcionada pelos recursos eletrônicos da televisão da lentidão de transmissão a que obriga a natureza química do filme, a intensidade do presente registrado na fita magnética e a aura de passado que fulge mesmo nas atualidades cinematográficas, a forma de comunicação direta da TV em oposição à aura de ficção de que o cinema não escapa até nos seus próprios desvelos realísticos, o feed back possibilitado pelo video e a mensagem sem retorno do filme, a informalidade e a intimidade de apresentação de um programa de TV, determinada pelo seu pequeno screen, contrapostas ao cerimonial da apresentação do filme, herdeiro da cena italiana – compõe esse corpus geral da antinomías linguísticas entre os dois media.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Walter Zanini
Vostell, através de intensa atuação intersemiótica, incluía a pesquisa de TV em happenigs e environments, estimulado pelo problema da ausência de feed back do media e na sua utilização coletiva enquanto recurso psíquico-estético.
Walter Zanini – I encontro internacional de Videoarte de São Paulo. CA810
1978
Tadeu Jungle
O Brasil ainda encara o video como um objeto estranho. Hoje percebemos os empresários e publicitários mais conscientes do valor deste suporte eletrônico e notamos que no campo comercial o video cresce sem problemas. Isto sem falar no uso óbvio dentro da TV.
Não podemos dizer o mesmo da área cultural. Fazer arte em video, hoje e aqui, é obra sem causa. Não vamos nos aprofundar nos porquês: inexistência de espaços para veiculação; retorno comercial nulo; desprezo estético generalizado pela intelectualidade Brasiliana…
Tadeu Jungle – MAC Espaço video MAC / Panasonic pg 17 PR1715
1988
VIDEO ART USA
Douglas Davis explora ao mesmo tempo o medo latente desse meio frio de comunicação e a sua natureza como meio de comunicação individual (ao invés de comunicação com um fictício público em massa).
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 12. CA080
1975
Cacilda Teixeira da Costa
O tempo do video é uma coisa decidida pelo artista. É uma coisa que causava imensa inquietação e muitas vezes tédios que viraram folclore: o tédio da videoarte. Na verdade, isso é um pouco da inexperiência dos artistas que vinham das artes plásticas e não tinham temperamento do uso do tempo. Então, faziam videos muito longos. (…) Uma forma que os artistas descobriram para contornar esse problema do tempo foi com a videoinstalação. (…) O tempo é um dos dados fundamentais da videoinstalação.
Cacilda Teixeira da Costa, p.3-4, TR 2130
1990
Cacilda Teixeira da Costa
Esses artistas [do video] se expressavam dentro algumas linhas principais: a significação abstrata, quer dizer, eles usavam meios eletrônicos, tecnológicos, etc. para pesquisar uma imagem abstrata de video de televisão. Uma outra tendência era a documentação, auto-expressiva e social, quer dizer, eles faziam performances que eram registradas em video e eles apresentavam como trabalho de video, mas na maioria das vezes eram performances e instalação ambiental que é o que hoje nós chamamos instalações de video.
Cacilda Teixeira da Costa, p.2, TR 2130
1990
Cacilda Teixeira da Costa
As instalações de video que estão interessando para vocês agora derivam da chamada videoarte, ou seja, o videotape usado por artistas como meio para expressão de sua arte. Começou no final dos anos 50 com Nan June Paik e Wolf Vostell.
Cacilda Teixeira da Costa, p.1, TR 2130
1990
VIDEO ART USA
Em um ensaio escrito em 1965, Nam June Paik observou que a “arte cibernetizada é muito importante, porém arte para a vida cibernetizada é ainda mais importante; contudo a vida não precisa ser cibernetizada”. Com seus múltiplos interesses, como Zen, cibernética, composição musical e uma política global dedicada à sobrevivência e à mudança, Paik literalmente abriu a picada para toda uma geração de artistas.
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 12. CA080
1975
VIDEO ART USA
Douglas Davis ataca especificamente os conceitos vigentes sobre a passividade do expectador em relação tanto à televisão como à arte em geral.
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 12. CA080
1975
Acerca da obra Austrian Tapes, do artista.
VIDEO ART USA
O video tem tido uma das suas aplicações mais interessantes na prolongação e intensificação da experiência de uma apresentação ao vivo.
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 9. CA080
1975
VIDEO ART USA
(…) A maioria dos trabalhos expostos consiste de videotapes, a modalidade de arte do video mais portátil e mais prática do ponto de vista técnico. A seleção de tapes exibidos abrange uma variedade incrível de atitudes, formas e estilos, evidenciando a extraordinária vitalidade do video como instrumento de criação.
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 9. CA080
1975
VIDEO ART USA
O trabalho com video que atualmente se faz nos Estados Unidos pode ser dividido, grosso modo, em três categorias principais: vários tipos de videotape, apresentações ao vivo com o concurso do video, quer diretamente, quer como acessório do trabalho, e construções esculturais. Infelizmente, porém, a distinção nítida entre essas categorias torna-se menos precisa, pelo fato de que muitos trabalhos contém elementos de mais de uma categoria(…).
Notas sobre a exposição VIDEO ART USA, pg 9. CA080
1975
David A Ross
Até 1965, os instrumentos do campo da televisão eram usados quase que exclusivamente pelas grandes firmas e pelos grandes partidos políticos para efetuar a transmissão unidirecional de informação previamente elaborada, nenhuma possibilidade havendo de que os mesmos instrumentos e o mesmo sistema de transmissão fossem usados para comunicações que viessem ao encontro das necessidades do indivíduo. A “revolução da meia polegada” abriu a possibilidade de se utilizarem sistemas de distribuição descentralizados adaptados às necessidades de minorias numa sociedade pluralista, como, por exemplo, a televisão à cabo. Essa revolução também ampliou extraordinariamente o potencial do vídeo como um meio para a produção de arte.
Mais ou menos naquela mesma época, as atividades do grupo Fluxus e os happenigs organizados por artistas como Kaprow , Oldenburg e Dine, iam contribuindo para uma atitude mais aberta com relação a obras interdisciplinares e salientando a necessidade de uma arte mais informada pela cultura e mais capaz de informá-la.
David A Ross, pg 6. CA080
1975
David A Ross
Qual é o significado da expressão arte do video? A melhor definição talvez seja: qualquer trabalho de arte que abranja materiais próprios ao video, tais como câmeras e aparelhos de televisão, equipamento para filmar ou projetar videotapes e um grande número de aparelhos para reprodução da imagem, ou seja, sistemas de televisão em geral.
David A Ross, pg 5. CA080
1975
David A Ross
O fato de que um número cada vez maior de artistas nos Estados Unidos vir trabalhando com os meios de produção para a televisão continua a causar perplexidade não só entre os críticos como também no público em geral.
David A Ross pg 5. CA080
1975
Jack Boulton
Ao reorganizar a contribuição dos Estados Unidos à VIDEO ART, a fim de ser exposta na América Latina, procurei aderir tanto quanto possível à nossa concepção original: mostrar a variedade de opções exploradas pelos artistas que estão trabalhando com o video e reconhecer a relação que existe entre esses depoimentos estéticos pessoais e o macro-sistema gigantesco da televisão comercial.
Jack Boulton, pg 3. CA080
1975
Cacilda Teixeira da Costa
Toda publicidade em televisão é extremamente influienciada pelas obras dos artistas, então, o que centenas de milhares de pessoas assistem na televisão, de uma certa forma é fruto de muita coisa que é criada por aqueles artistas cuja obra é passada no museu para um pequeno público.
Cacilda Teixeira da Costa, pg 12, TR2131
1990
(acerca de videoarte)
Aguilar
A televisão brasileira não tem iteresse [na videoarte], ela está muito viciada dentro de um determinado tipo de imagem que é o chamado – imagem global de qualidade -, em que os atores interpretam. Ainda é uma linguagem de teatro e não uma linguagem de video.
Aguilar, pg 4 – FT0491
1980
Jack Boulton
Historicamente, a primeira vez que o video foi apresentado no contexto das “belas artes” foi como escultura.
Jack Boulton, pg 3 CA808
1975
Aguilar
A videoarte começou principamente nos anos 60, mais ou menos. Teve sua origem quando a Sony lançou o primeiro aparelho portátil de televisão.
Aguilar, pg 1 – FT0491
1980
Aguilar
A videoarte está muito ligado também à arte de performance, porque na realidade, a arte corporal – a arte do momento e o video têm uma coisa muito interligada, o exato movimento, determinar a espontaneidade, a força do momento e a integração com as pessoas também é uma coisa interessante.
Aguilar, pg 7 – FT0491
1980
Aguilar
Interessante que o video, além de ser a arte do olho, a arte de ver, a arte de ver não o convencional, mas a arte de descobrir você mesmo através de sua visão de mundo, leva para um determinado tipo de ação corporal. (…) Então, vários artistas que utilizam esta mídia, esta linguagem, eles realmente fazem parte principalmente de um contexto de performance, eles realizam performances, eles realizam atos através do corpo (…).
Aguilar, pg 1 – FT0491
1980
Aguilar
A videoarte, num determinado sentido, agregou todos os artistas contemporâneos da vanguarda. (falando da década de 60)
Aguilar, pg 1 FT0491
1980
Walter Silveira
Era uma preocupação do trabalho, do projeto, explorar os recursos da linguagem do video, então são trabalhos que cristalizam determinados pensamentos que foram desenvolvidos durante todo esse percurso que eu trabalhava em televisão, de dar aula, de envolvimento com artes gráficas, com poesia visual.
Walter Silveira, pg 3 TR2133
1990
(acerca de um trabalho seu, de videoarte)
Cacilda Teixeira da Costa
A televisão é o nosso dia a dia, então, que o artista use o video é uma coisa que a gente imagina importante também na medida em que essa televisão, que a tectonologia, influi na arte.
Cacilda Teixeira da Costa, pg 11, TR2131
1990
Cacilda Teixeira da Costa
Aquele pessoal com quem eu trabalhei em 77, 78, eram artistas plásticos, geralmente artistas ligados ao movimento conceitual, que usavam o video como um meio, como eles usariam o papel, sei la, uma gravura ou uma fotografia, eles usavam o video. Nesse segundo momento em 86, dez anos depois, já era completamente diferente, era uma nova geração que a gente já não chamava mais de artistas, eles não eram mais artistas plásticos, eles eram videomakers, eles eram pessoas que trabalhavam com video (…) só que esses profissionais de video, os que eventualmente eram artistas, em algum momento eles deixavam de fazer uma coisa que não fosse só para vender e faziam um trabalho de expressão própria. E eu descobri uns trabalhos muito interessantes.
Cacilda Teixeira da Costa, pg 9. TR2131
1990
Jack Boulton
São três tipos de videotapes incluídos na exposição: aqueles de orientação sociológica, que documentam ou revelam certos aspéctos da nossa vida nacional, ou quais são ignorados ou tocados apenas superficialmente pela televisão comercial; que se concentram na pesquisa e manipulação das complexidades do potencial eletronico do meio e, finalmente, aqueles refletindo o período pós-arte mínima, os quais são utilizados pelos artistas para explorar ou transmitir preocupações estéticas de um teor mais amplo. Finalmente, a fim de chamar a atenção para a continuidade que existe entre a televisão regular e o video como arte, incluímos também, além do trabalho de colagem de Telethon, a obra de Ernie Kovacs que escrevia, dirigia e interpretava seus próprios programas(…).
Jack Boulton, pg 3 CA808
1975
Acerca da curadoria da exposição VIDEO ART USA
Jack Boulton
A outra é de autoria de Peter Campus, escultor do período da pós-arte mínima, o qual se utiliza do video como instrumento de uma exploração altamente sofisticada e cerebral da natureza da percepção.
Jack Boulton, pg 3 CA808
1975
Acerca de obra presente na exposição VIDEO ART USA
Jack Boulton
Ela incorpora o videotape num contexto escultural, enaltecendo, de maneira superlativa, a capacidade que o video tem de fundir culturas e povos diferentes numa aldeia global!”
Jack Boulton, pg 3 CA808
1975
Acerca de obra de Nam June Paik presente na exposição VIDEO ART USA
Aguilar
Muita gente me fala que a videoarte é muito chata além de agressiva. Ela é chata pois eu acho que ela joga com o tempo real e o tempo real é um tempo que incomoda. (…) A montagem da televisão ou do cinema (que a televisão usa muito a linguagem do cinema), é um tempo irreal. Toda montagem [nesses casos] é sempre no sentido de prender a atenção (…), te levando para longe de uma realidade sua, na maioria das vezes.
Aguilar, pg 10 – FT0491
1980
(mais adiante na pág 11 Aguilar reitera sua fala dizendo que se refere a alguns videos específicos que se utilizam do tempo real. Mas considero essa citação importante pois está falando da idéia de incômodo e estranhamento causada pela videoarte, como até hoje percebemos na apreensão arte contemporânea por parte do público.)
Exposição realizada no MAC USP em 1977.