ARTES DE FRONTEIRA hibridismos e experimentações
Uma leitura expandida do material de PERFORMANCE e VIDEOARTE no Arquivo Multimeios do CCSPVIDEOARTE: VIDAARTE
A videoarte nasceu como escultura. E com a base conceitual das experiências do grupo Fluxos, na figura de Nam June Paik.
Paik trazia para a tecnologia do vídeo as mesmas idéias que a princípio estavam sendo empregadas na música pelo Fluxus.
“Minha peça favorita é a que nós ouvimos o tempo todo se ficamos calados.”
John Cage in Lygia Arcuri Eluf, p.17, DT 3604 – 1987
O cotidiano entrando na obra de arte. A sensibilização para a percepção da vida como obra de arte.
“A televisão é o nosso dia a dia. Então, que o artista use o vídeo é uma coisa que a gente imagina importante também na medida em que essa televisão, que a tecnologia, influi na arte.”
Cacilda Teixeira da Costa, p. 11, TR2131 – 1990
Não sem causar estranhamento no meio artístico.
“O fato de um número cada vez maior de artistas nos Estados Unidos vir trabalhando com os meios de produção para a televisão continua a causar perplexidade não só entre os críticos como também no público em geral.”
David A Ross, p. 5, CA080 – 1975
O aparelho-televisão vira videoescultura.
“Historicamente, a primeira vez que o vídeo foi apresentado no contexto das ‘belas artes’ foi como escultura.”
Jack Boulton, p. 3, CA808 – 1975
O início das experimentações de Paik com o vídeo na década de 50 foi com o aparelho de TV, como em suas obras de televisão preparada, onde a captura de imagens ainda não entrava no processo de criação. O aparelho de TV aparece no espaço expositivo: inicia-se a videoarte, com referência direta ao ready-made de Duchamp. O aparelho de televisão – objeto cotidiano – vai para o contexto expositivo.
O grupo Fluxos também tinha uma forte referência do dadaísmo e do futurismo. No entanto, eles viveram outra época, onde um imaginário próprio entrava na criação. Uma época em que a tecnologia se desenvolvia e se espalhava com intensidade, impregnando o cotidiano.
“Não houve catástrofes aéreas nos anos 20, a televisão ainda não fora inventada nem o culto do automóvel. Estes fenômenos aparecem pela primeira vez em nossa geração como prodígios. Senão, como poderia eu ter interpretado o aparelho da televisão como escultura, o acidente de carro como fato esculpido? ”
Wolf Vostell, p.320, DT 3599 – 1983
O conceito de videoescultura desembocou no que entendemos hoje como videoinstalação. Nos trabalhos de Paik e Vostell a televisão vai ocupando cada vez mais o espaço expositivo, criando novas possibilidades de apreensão da imagem.
“Paik e Vostell compreenderam muito rápido que liberando a imagem da TV dos limites da tela seria possível alcançar formas inesperadas e sedutoras de uma nova estrutura própria da era eletrônica. As videoesculturas de Paik são as primeiras videoinstalações.”
Cacilda Teixeira da Costa, p.6, TR 2130 – 1990
A relação entre vídeo e televisão que existe desde o início da videoarte é um tema profícuo até hoje. Os artistas trazem novos olhares para a linguagem televisiva.
A televisão desenvolveu-se nos moldes de linguagens como o teatro e o cinema. Trabalha com intenções comerciais e políticas.
“A televisão brasileira não tem interesse na videoarte, ela está muito viciada dentro de um determinado tipo de imagem que é a chamada imagem global de qualidade, em que os atores interpretam. Ainda é uma linguagem de teatro e não uma linguagem de vídeo.”
Aguilar, p.4, FT 0491 – 1980
“A televisão (…) utilizada comercialmente, converteu-se num elemento de massificação cultural, ou seja, em instrumento anti-dialógico a serviço da interpretação unívoca dos que retém o comando da informação: uma arma incomparável à serviço do poder político e econômico, do controle institucional, pouco importando a ideologia do sistema social em que viesse a ser implantado.”
Walter Zanini, CA 810 – 1978
Enquanto isso, a linguagem do vídeo recebia novas leituras, pelos artistas.
O vídeo era uma novidade cultural. Foi comido por diversas áreas.
“Eu fazia muito cinema Super 8. Quando apareceu o vídeo, eu quis comprar pra experimentar, buscar canais de expressão. No fundo, tudo é uma coisa só, tudo se liga de alguma forma. Eu vi que nas artes havia muito essa relação, a relação entre as linguagens. Se bem que cada linguagem tem a sua profundidade, a sua especificidade, dando pra compor entre elas.”
Guto Lacaz, p.17, TR 1884 – 1985
A videoarte trabalha a linguagem do vídeo de forma totalmente díspar da televisão, mesmo que muitas vezes se utilize dela própria, manipulando a imagem, distorcendo o conteúdo, repensando a comunicação, redirecionando a intenção, reeditando e reorganizando sua informação.
“O campo especulativo do vídeo mistura-se com a substancialidade da TV na exploração da realidade. Mas sua problemática inverte o que passou a ser a necessidade condicionada de consumo do telespectador, ou descerra campos insuspeitados e imprevistos à utilização do tubo de raios catódicos.”
Walter Zanini, CA 810 – 1978
A captação da realidade em movimento áudio-visual talvez seja a característica mais própria da linguagem do vídeo. E esta realidade é necessariamente recortada, manipulada, editada. Define-se, assim, a subjetividade na comunicação diante da realidade que se captura.
“Eu gosto do vídeo, eu gosto da imagem, dessa possibilidade de você ter a imagem, dessa imagem ser processada no tempo e você ter condições de trabalhar com o som também. O que fascina no vídeo é a permanência ali do movimento da coisa, é você conseguir captar esse tipo de espontaneidade.”
Walter Silveira, p. 9, TR 2133 – 1990
O olhar (subjetividade) do artista recria a realidade.
“O principal elemento do vídeo é o seu olho.”
Aguilar, p.1, FT0491 – 1980
“As origens [da videoarte] estão sensivelmente na compreensão da arte enquanto fenômeno acoplado à existencialidade, da arte enquanto um processo de atividade e, portanto, não mais conduzida pela exigência física da produção de um objeto, da arte que se pressupõe como um sistema colocado na perspectiva dos meios mais válidos da comunicação do presente.”
Walter Zanini, CA 810 – 1978
O artista passou, então, a ter acesso a um poderoso meio de produção de conteúdo. E de arte.
“Até 1965, os instrumentos do campo da televisão eram usados quase que exclusivamente pelas grandes firmas e pelos grandes partidos políticos para efetuar a transmissão unidirecional de informação previamente elaborada, nenhuma possibilidade havendo de que os mesmos instrumentos e o mesmo sistema de transmissão fossem usados para comunicações que viessem ao encontro das necessidades do indivíduo. A ‘revolução da meia polegada’ abriu a possibilidade de se utilizarem sistemas de distribuição descentralizados adaptados às necessidades de minorias numa sociedade pluralista, como, por exemplo, a televisão à cabo. Essa revolução também ampliou extraordinariamente o potencial do vídeo como um meio para a produção de arte.
Mais ou menos naquela mesma época, as atividades do grupo Fluxus e os happenigs organizados por artistas como Kaprow, Oldenburg e Dine, iam contribuindo para uma atitude mais aberta com relação a obras interdisciplinares e salientando a necessidade de uma arte mais informada pela cultura e mais capaz de informá-la.”
David A Ross, p.6, CA080 – 1975
A videoarte segue alterando a narrativa da TV e do cinema.
“O vídeo deixou de ser aquele programa com começo, meio e fim para ser uma coisa em que a discussão do espaço/tempo está mais embutida no trabalho.”
Walter Silveira, p. 4, TR2133 – 1990
Outra característica exclusiva do vídeo: o ao vivo.
“Todo potencial da televisão dirige-se à apreensão da realidade nos mais penetrantes aspectos de sua imediaticidade. As qualidades estruturais específicas da TV tem sido estudadas frequentemente na análise comparativa com o cinema. Um depoimento de Frank Gillette refere-se às naturezas intrínsecas da luz do cinema e da luz do vídeo: nesta ‘você olha na fonte da luz, e no filme você olha com a fonte da luz’ (conforme Willoughby Sharp). Os contrastes que separam a rapidez da informação proporcionada pelos recursos eletrônicos da televisão da lentidão de transmissão a que obriga a natureza química do filme, a intensidade do presente registrado na fita magnética e a aura de passado que fulge mesmo nas atualidades cinematográficas, a forma de comunicação direta da TV em oposição à aura de ficção de que o cinema não escapa até nos seus próprios desvelos realísticos, o feed back possibilitado pelo vídeo e a mensagem sem retorno do filme, a informalidade e a intimidade de apresentação de um programa de TV, determinada pelo seu pequeno screen, contrapostas ao cerimonial da apresentação do filme, herdeiro da cena italiana – compõe esse corpus geral das antinomias linguísticas entre os dois media.”
Walter Zanini, CA 810 – 1978
Uma vasta produção em vídeo realizada por artistas não deixa de esbarrar na questão da veiculação, que permanece política e economicamente dominada pela mass media.
“Esses vídeos de artistas desde o começo foram muito difíceis de se colocar. A aspiração dos artistas era que eles fossem veiculados pela televisão comercial, mas isso é dificílimo. (…) A televisão comercial não é o meio, não é o canal para o vídeo de artista. Assim, ele começou a ser veiculado no meio das artes, nas galerias, nos museus.”
Cacilda Teixeira da Costa, p.2, TR 2130 – 1990
Hoje vemos surgir novos canais de distribuição, como é o caso da internet, mas ainda observamos um reduzido alcance do conteúdo artístico. Mesmo assim, diante de tantas novidades que se abrem a todo instante no horizonte da tecnologia, podemos imaginar uma maior veiculação da videoarte e de novas formas artísticas-poéticas de comunicação no futuro.
No entanto, ambiente da arte parece que a questão crucial sempre retorna:
“A questão da tecnologia ligada ao vídeo não é tão fundamental. Fundamental é a idéia, o conceito de trabalho e não o recurso que se dispõe. (…) O equipamento sozinho não anda, o que move é a idéia, o projeto, o conceito dele.”
Walter Silveira, p. 7-8, TR 2133 – 1990